quarta-feira, 14 de março de 2012

A conjunção entre Vênus e Júpiter visível no céu do dia 13 de março de 2012


Imagem gerada com o freeware Stellarium( http://www.stellarium.org )
Apesar da correria das nossas vidas, eventualmente uma notícia de jornal nos lembra de que ouniverso segue seu ritmo e nos brinda com espetáculos sutis e maravilhosos.  Desta vez é a aproximação aparente entre os planetas Vênus e Júpiter acima do horizonte ao anoitecer do próximo dia 13 de março.
A primeira exclamação vem daqueles que nunca se deram conta de que alguns planetas são conhecidos desde a antiguidade.  Muitos séculos antes da invenção dos telescópios.  Nada mais natural do que serem visíveis a olho nú!  Mais do que isto.  Alguns são extremamente brilhantes e estão acessíveis a qualquer um que pare para apreciar o firmamento.  Neste caso específico, estaremos apreciando a aproximação aparente dos dois planetas mais brilhantes do nosso céu.  O primeiro, que aparece mais abaixo e a direita de quem olha para o horizonte oeste, onde o Sol acaba de se por, é o planeta Vênus.   Este tem mais ou menos o tamanho da Terra e foi tido durante muitos anos como um mundo paradisíaco onde nuvens eternas encobririam uma fantástica floresta tropical de proporções planetárias.
Infelizmente, as primeiras sondas espaciais descobriram que a capa de nuvens que envolvem completamente o planeta Vênus não decorre de uma umidade tropical, mas de um efeito estufa muito intenso e que produz temperaturas na superfície de Vênus capazes de derreter rapidamente o chumbo!  Sob estas condições não existe a menor possibilidade de haver vida em Vênus e o verão tropical do Rio de Janeiro, que nos parece insuportável, perde feio para a fornalha venusiana.
Por outro lado, esta capa de nuvens que abafa Vênus reflete com muita eficiência a luz do Sol e faz com que este seja o planeta mais brilhante do céu, perdendo apenas para o Sol e a Lua.  Sua luz, em algumas épocas, é tão brilhante que dizem que chega a produzir sombras em noites escuras e sem luar de lugares sem qualquer poluição luminosa!
Vênus também está mais próximo do Sol do que a Terra.   Isto significa que sua órbita em torno do Sol tem um raio menor do que o da órbita da Terra.  A consequência é que jamais poderemos ver o Sol e Vênus em lados opostos do céu.  Visto da Terra, o planeta Vênus nunca se afasta mais do que uns quarenta e cinco graus da direção do Sol.  Logo só pode ser visto logo após o pôr do sol ou pouco antes do amanhecer.  Por ser tão brilhante e ser visível nestas condições ganhou apelidos como “estrela matutina”, “estrela vespertina”, “vésper” e “estrela d’alva”.  Todos se referem ao mesmo astro que fulgura eventualmente logo acima do horizonte e captura nossa atenção quando paramos para olhar a paisagem.
Já o astro que brilha pouco acima e a esquerda de Vênus nesta semana é o planeta Júpiter, de longe o maior do sistema solar.  Está muito distante de nós, mas seu tamanho colossal e sua capa espessa de nuvens também refletem com eficiência a luz do Sol e transformam este gigante no quarto astro mais brilhante do nosso firmamento, depois do Sol, da Lua e de Vênus.
Mesmo sendo o maior planeta e reunir mais matéria do que todos os outros planetas juntos ele é basicamente gasoso e boa parte do seu diâmetro é exatamente composto por nuvens!  Sua importância para a astronomia cresceu enormemente quando Galileo apontou sua tosca luneta para Júpiter e descobriu quatro pequenos “astros” que, noite após noite, trocavam de posição sem nunca se afastar.  O acompanhamento destes pequenos pontos de luz revelou que estavam girando em torno de Júpiter e rompiam, portanto, a crença de que tudo no universo girava em torno da Terra.
Também foram fundamentais para a medição da velocidade da luz, mas isto é outra estória e fica para outra ocasião.  Por enquanto, vamos nos concentrar na precariedade da luneta de Galileo, que era inferior a qualquer binóculo que muitos de nós mantemos nos armários.
Se Galileo conseguiu descobrir as luas de Júpiter com uma luneta ruim, por que não podemos usar nossos binóculos para vê-las também? A causa mais comum para as luas de Júpiter nos passarem despercebidas é que raramente apontamos nossos binóculos para o céu, o que é um erro, mas principalmente porque não nos damos ao trabalho de apoiar o binóculo numa base ou tripé firme.
Ao mantermos o binóculo apoiado pelos braços diante de nossos olhos, vibramos, sacodimos, balançamos e fazemos de tudo para impedir que nossos olhos percebam todos os detalhes da imagem.  Experimente apoiar o binóculo sobre uma base firme como o topo de um muro, um cabo de vassoura ou um tripé!  Com a ótica firme e com calma, seus olhos poderão perceber detalhes do céu com o binóculo que você nunca imaginou!  Crateras na Lua, satélites de Júpiter e uma infinidade de estrelas que seus olhos desarmados não conseguem ver!
Aproveite a notícia para incluir momentos de calma e contemplação na sua rotina.  Se quiser saber mais e como Júpiter participou da medição da velocidade da luz, apareça às quartas-feiras, a partir das 19h00, no espaço Ciência Viva para conversar com os astrônomos amadores que se reúnem por lá e aproveite para olhar os astros através de telescópios que fariam Galileo morrer de vergonha da sua lunetinha...
A entrada é gratuita e o Espaço Ciência Viva fica na Av. Heitor Beltrão número 321, bem perto da Praça Saens Peña.

Sergio Lomonaco Carvalho
Grupo de Astronomia do Espaço Ciência Viva

Um comentário:

Cadu disse...

Parabéns pelo site e pelas informações. Reparei que vênus tem brilhado de forma mais intensa nas últimas semanas. Isso se deve à uma maior aproximação com a Twrra ou à conjunção com Júpiter?