sábado, 28 de janeiro de 2012

Meditação e Sensibilidade por Pedro Tornaghi


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Quando pequeno, eu costumava assistir a filmes de “gente grande” junto a meus irmãos mais velhos. Meu pai tinha um projetor 16mm que costumava agregar a família em felizes e inesquecíveis sessões. Uma noite me lembro que escutei uma loura em uma película noir de detetives advertir a um cupincha: “cuidado, as paredes têm ouvidos”.
Como não entendi do que ela falava, pensei, ao pé da letra: será que as paredes têm mesmo capacidade de escutar? Naquela noite fui para a cama, sozinho, como sempre ia, e me perguntei se as paredes me escutavam de verdade, passei horas tentando escutá-las me escutando e, por muitos anos repeti aquele ritual. Eu estava descobrindo ali, a meu modo e intuitivamente, o que mais tarde eu nominaria de experiência meditativa.
Hoje não mais acredito com tanta facilidade que as paredes tenham ouvidos, mas deparo todos os dias com situações onde me surpreendo e constato que “os ouvidos têm paredes”. E me pergunto? Será? E infelizmente, com freqüência, desconfio que não só os ouvidos à minha volta têm paredes, mas também os olhos, as sensibilidades, as almas, ostentam paredes laboriosamente construídas e defendidas, que impedem de perceber e distinguir. E, viciado que sou em meditar, me pergunto se meditação não é exatamente transcender essas paredes, resgatar a sensibilidade perdida, o discernimento esquecido, resgatar a capacidade de ver e escutar em sua abrangência mais plena, em seu âmbito mais profundo.
Meditação e sensibilidade são praticamente sinônimos. A meditação é o estado a que chegamos quando levamos a sensibilidade às suas últimas possibilidades. Quando tocamos o limite do que a sensibilidade é capaz, nos descobrimos à porta da meditação. Daí em diante, depende apenas de nós, entrar ou não.
Para chegarmos à meditação, podemos começar por desenvolver a sensibilidade que nos é mais próxima. Podemos começar por devolver aos sentidos a sua capacidade plena de perceber, por aprimorar a receptividade ao que escutamos, vemos ou sentimos com a pele.
Escutar é uma arte a ser desenvolvida por todos aqueles que ambicionam ser sinceros consigo próprios e pelos que pretendem conhecer a beleza possível a quem está vivo. Para passarmos a escutar mais integralmente, precisamos primeiro perceber quais são as nossas rotas de fuga, como normalmente evitamos perceber o outro. Todos temos, de uma maneira geral, dificuldade de escutar plenamente, sentamos em frente à outra pessoa e, enquanto ela fala, filtramos tudo o que ela diz a partir do conceito que temos dela. Se a consideramos respeitável, vemos o que ela diz de uma maneira positiva, se não a julgamos respeitável, ela pode nos dizer coisas importantes, fundamentais ou belas que ouviremos com menos atenção e deixaremos escapar verdadeiros tesouros por entre os dedos. E, se eu tenho interesses ou investimentos em relação a essa pessoa, isso também altera o meu escutar.
Nossa mente é a grande inimiga do escutar e do sentir pleno. Quando começamos a dar ouvidos a alguém, ela imediatamente começa a fazer algum comentário interno sobre algo do que foi dito. Rapidamente ela começa a julgar a situação, condenar algo do que foi falado. Para sabotar a escuta, nossa mente nos leva a pensar que temos alguma idéia mais verdadeira ou mais importante que a idéia de quem está falando. Até chegar ao ponto dela meramente pensar em outra coisa qualquer para, cínica e dissimuladamente, tirar a nossa atenção do que está sendo conversado.
Escutar, “simplesmente escutar”, é uma arte, e como toda arte, pode ser desenvolvida, treinada e alcançada pela educação da atenção. Mas, ao desenvolver essa arte, como tornar-se livre do julgar e do tagarelar da mente? Para isso foram criadas as meditações dos sentidos, meditações praticadas durante o ato de ver ou de escutar, que nos dão recursos para que o façamos gradualmente, a cada vez com menor interferência dos julgamentos constantes da mente.
Essas técnicas foram desenvolvidas para, em um primeiro momento, afinar os sentidos – e elas são eficazes nesse quesito, são capazes por exemplo de regredir as disfunções básicas da refração visual, fazendo regredir o grau dos óculos em problemas como miopia, hipermetropia, astigmatismo e visão cansada, já tendo levado muitas pessoas a abandonarem os óculos ao praticá-las. E, não apenas a visão muda com a sua prática, elas regeneram também a sensibilidade do tato, do paladar e do olfato, levando-nos a sentir mais integralmente a realidade a nossa volta.
Mas sua interferência em nosso sentir não pára por aí, ao mesmo tempo em que promovem a restauração e aprimoramento de capacidades físicas, essas meditações desenvolvem, progressivamente, os sentidos internos, possibilitando que entremos dentro de nós como um mergulhador entra no mar, com equipamento de máscara e respirador, enxergando o universo interior e tendo fôlego para continuar a viagem; com o conforto necessário para que exploremos nossas riquezas pessoais com uma lucidez nova e reveladora. Mesmo que ótimas pelos seus benefícios físicos, o mais precioso das meditações da visão é realmente o fato de nos preparar e aparelhar para a viagem pelo imenso mar nunca dantes navegado: o oceano interno.
As meditações da visão, paralelamente às habilidades que desenvolvem, vão também, progressivamente, criando uma atmosfera pessoal de paz e silêncio interiores, necessários ao enxergar pleno. Trata-se de uma nova qualidade de ver, ou de um “simples enxergar”, um enxergar de quem apagou dentro de si todo o enxergado anterior; um enxergar como quem não precisa contar depois o que enxergou; um enxergar com a falta de compromisso de quem não vai contar nem a si mesmo. Um enxergar como quem jamais precisará entender o que viu, assim como a natureza de um passarinho vê, sem depois ter sequer que lembrar.
Em seguida, vem a surpresa, esse enxergar descompromissado e sem interesses paralelos, nos leva a uma compreensão inédita do que foi visto, a uma compreensão incorporada, que respira em todos os nossos poros e que fala por si só. Uma compreensão não de quem sabe intelectualmente, mas de quem se tornou a cena vista e a entende de dentro para fora, podendo agora ter palavras próprias para contá-la a alguém, se quiser ou precisar.
Por incrível que pareça, essas meditações da visão são tão simples e acessíveis quanto eficazes e profundas. São fáceis de serem realizadas por quem nunca meditou e, ao mesmo tempo, patrocinadoras de um mergulho profundo e real a quem muito já investiu no próprio autoconhecimento. Basta dar uma chance a elas. Ou a você.

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http://pedrotornaghi.com.br/blogger/?page_id=107
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